Entrevista | Camila Rizzo, Bruna Cabral e Ligia Osorio – Headway (Curta)

Tivemos um grande prazer de conversar com as maravilhosas, Camila Rizzo, Bruna Cabral e Ligia Osorio, que contaram um pouco pra gente sobre seu curta, Headway que participou do Washington West Film Festival levando o prêmio de Escolha do Público para casa! Vem conferir nosso papo bem bacana com ela e que o Brasil está sendo bem representado lá fora:

 

Estação Geek: Primeiramente quero agradecer a oportunidade de poder entrevistar vocês, Camila , Bruna e Ligia. Não é todo dia que temos a chance de conversar com brasileiros no cenário gringo, principalmente na direção ou produção.

Minha primeira pergunta é sobre a historia de Headway . De onde vocês conheciam a história e o que mais chamou atenção nela?

Camila Rizzo (diretora) – O filme é baseado em 2 personagens reais. Um deles é o meu irmão, Pedro Rizzo, que é ex-lutador de MMA, bicampeão mundial e ex-lutador do UFC. Acompanhei de perto a carreira do meu irmão e vi a dificuldade dele em decidir o momento certo para se aposentar. Percebi que esse deve ser um conflito que todos os atletas de alto nível deve ter. Passam em torno de 20 anos treinando um esporte intensamente e com 30, 40 anos precisam se aposentar. Muito novos para se aposentar. Ou seja, quando as outras pessoas estão no auge das suas carreiras, o atleta precisa parar e começar uma nova carreira do zero. Muitas vezes sem ter experiência em outras áreas. Se reinventar. Por isso é difícil aceitar e parar. 

O outro personagem é o Igor Nogueira. Eu trabalhava na TV Globo e era editora de texto no programa “Encontro com Fátima Bernardes”. Lá eu conheci a história do Igor Nogueira, atleta baiano autista, que foi personagem do programa, em 2016. Achei a história de superação do Igor, através do Jiu-Jitsu, incrível. O depoimento da mãe dizendo que durante 16 anos ela não podia tocar e nem abraçar o filho, já que ele não tolerava ser tocado por causa do autismo, me emocionou. E também ver que o esporte foi capaz de mudar não só a vida do Igor, mas da família toda. Hoje, todos da família praticam o Jiu-Jitsu. 

Pesquisando sobre o assunto, descobri que existem muitas pessoas com autismo que praticam o Jiu-Jitsu e têm uma melhora absurda. Existem estudos que comprovam o benefício da atividade física para pessoas com autismo. É fisiológico, é real. Achei que precisava contar isso pro mundo. 

Entrei em contato com Gabriela Bhering, minha amiga de escola, excelente roteirista, e contei sobre a idéia de juntar os 2 personagens para fazer o curta como conceito para um longa metragem. Ela se apaixonou pela história na hora e começou a pesquisar e a escrever o roteiro. Durante 2 meses intensos, eu aqui nos EUA e Gabriela no Brasil, nos comunicamos e escrevemos 11 versões de roteiro até chegar no roteiro final.

Como uma boa jornalista, pesquisei muito sobre assunto. Li artigos, assisti a vídeos, filmes e séries sobre o assunto, entrevistei especialistas, a mãe do Igor, o professor de Jiu-Jitsu do Igor para entender todo o processo… Tivemos uma especialista em autismo, Natália Madasi, nos orientando desde construção do roteiro até o fim de todo o processo. Contei também com a ajuda de um professor de Jiu-Jitsu com experiência com pessoas com autismo. Quis me respaldar por todos os lados para ficar o mais crível possível. Um professor de Jiu-Jitsu vai assistir e vai ver o processo de ensino correto, o especialista em autismo vai assistir e vai entender que o menino só fez aquele movimento porque ele passou por outros que o fizeram chegar lá através do Jiu-Jitsu, a pessoa com autismo ou quem tem um familiar com autismo vai se identificar com as dificuldades do personagem e o totalmente leigo vai aprender um pouco sobre esse universo.

Estação Geek: A segunda é em questão do elenco. Vocês fizeram seleção por testes ou já tinham os atores em mente que seriam perfeitos para o papel de Pedro e Igor?

Bruna Cabral (Produtora) – Como os personagens são inspirados nos 2 e não é uma história biográfica, não procuramos atores exatamente iguais aos personagens reais, até mesmo para não nos limitar muito no Casting já que fizemos o filme nos EUA. O Casting de atores funciona da seguinte forma: existem plataformas digitais onde os atores cadastram os seus profiles e os cineastas postam os seus projetos com as características dos personagens e especificações gerais. Os atores se inscrevem no projeto. Depois disso, avaliamos o vídeo reel (vídeo de portfolio) dos atores que gostamos e fazemos uma seleção para uma audição onde escolhemos uma cena especifica do roteiro para eles atuarem. No Headway, tivemos muita sorte pois gostamos da Kelly V Dollan, que interpreta a mãe, de cara. Em seguida fizemos a audição para o personagem do Neil e o Connor se destacou e por sorte parecia bastante com a Kelly. Eles interpretam irmãos então era preciso que eles tivessem alguma semelhança. Por ultimo, fizemos as audições do Ben e Hayden arrasou. Após selecionarmos os três marcamos uma audição de chemistry read (audição de química) para vermos como os três atuariam juntos e foi maravilhoso. Acertamos no elenco! 

Estação Geek: E como é para vocês, principalmente sendo mulheres, mas fora do Brasil no circuito de cinema? Vocês sentem diferença na hora de produzir algum conteúdo, principalmente pelo fato de quem ainda vivemos em um mundo machista, infelizmente, no mundo do cinema/tv?

Ligia Osorio (Produtora) – Apesar deste ambiente ainda ser predominantemente masculino, o número de mulheres no mercado tem aumentado. Na verdade, produzir cinema nos EUA tem sido um desafio maior por estrangeira e não apenas mulher.

Estação Geek: E para finalizar: o que  vocês diriam para as pessoas que querem produzir algum curta/longa e qual o primeiro passo para fazer tudo isso acontecer? E se quiserem contar também um pouco como foi toda essa jornada de vocês, seria ótimo!

Dica das 3 para quem quer fazer um curta/longa: o primeiro passo é montar uma equipe em que vc confie. Pessoas tão apaixonadas pelo projeto quanto você, pois alguns sacrifícios vão ser necessários. Ter pessoas experientes ao seu redor, caso vc ainda não seja muito experiente ainda, ouvir o que eles têm pra falar, ouça sempre a sua equipe. Prepare bem o seu orçamento e não esqueça de incluir a pós produção e deixe uma boa verba para isso, planeje muito a produção para tentar economizar o máximo possível, imprevistos vão acontecer e se vc estiver bem planejado, você consegue contornar melhor as coisas. E divirta-se! É um trabalho que exige muita dedicação e paixão. Quanto melhor for o clima no set, melhor vai ser o resultado em todos os sentidos. 

Camila Rizzo (Diretora) – Eu trabalhei com televisão durante 13 anos no Brasil. Comecei em telejornal e depois de 3 anos migrei pro entretenimento, onde trabalhei na pós produção de novelas e séries na TV Globo (2007-2011). Me apaixonei por direção. Abri minha produtora e dirigi meus projetos. Em 2014 voltei pro jornalismo de entretenimento na TV Globo (“Mais Você” e “Encontro com Fátima Bernardes”). Em 2016, resolvi realizar um dos meus sonhos e vim pros EUA fazer uma pós em direção de cinema na UCLA (University of California Los Angeles). 

Ligia Osorio (Produtora) – Após 5 anos trabalhando como produtora executiva de uma agência de produção conteúdo em São Paulo, senti vontade de aprofundar o meu conhecimento fazendo um curso de extensão focado em produção e business no entretenimento, em Los Angeles. Então, me mudei pra Los Angeles em 2016 e desde então tenho produzido diferentes projetos como comerciais, curtas e longas metragens. 

Bruna Cabral (Produtora) – Eu me formei em Direito na PUC-RJ, mas sempre tive um grande interesse em Entretenimento. Depois de trabalhar 4 anos no departamento jurídico da Globo decidi que queria continuar no Entretenimento porém na parte criativa. Em 2014, decidi aceitar o desafio de mudar de carreira e seguir a minha paixão. Me mudei para Los Angeles e me formei em Produção e Business em Entretenimento na UCLA.  No momento, estou estudando Direção para ampliar os meus conhecimentos como cineasta. Durante esses 4 anos em Los Angeles trabalhei em uma Youtube Network, uma Produtora com exclusividade com a Fox, uma Agência de Talentos e no programa “Planeta Brasil” da Globo Internacional. Além disso, trabalhei em diversos projetos independentes como longa-metragem, curta-metragem e comerciais. Cada experiência nessas diferentes áreas estão conectadas e me fizeram entender como a Indústria funciona e aperfeiçoar o meu trabalho. 

Estação Geek: E quero agradecer novamente pelo tempo de vocês! Espero ter a oportunidade de assistir o curta em breve, deve ser muito interessante a história dos dois. E agora agradecendo, não como jornalista de cultura, mas como cineasta, por serem uma inspiração feminina e mostrar que toda a parte técnica do cinema (direção, produção, roteiro e assim segue) pode ser feito ainda melhor por uma mulher. E que com as coisas que eu crio e ainda quero conseguir produzir chegue ao mesmo lugar que vocês!