Resenha | Pose – 1ª temporada

2018 está repleto de lançamentos. Tivemos Objetos Cortantes a pouco tempo, chegou Maniac de fininho e surpreendendo, as séries que heróis estão sempre presentes, mas com toda certeza nada é igual Pose, a nova série de Ryan Murphy. Com sua trama anos 80, acompanhamos não só a comunidade LGBTQ, mas entendemos como foi ser alguém nessa época que para elxs não foi não fácil assim.

Na trama acompanhamos Blanca (MJ Rodriguez), mulher transgênero que após descobrir ser portadora do vírus HIV, decide tentar aproveitar a vida ao máximo – já que naquela época a doença era tratada como uma praga sem cura – saindo de baixo das assas de sua mentora, Elektra (Dominique Jackson) para construir sua própria casa e ajudar outros jovens. Ao seu lado encontramos o dançarino prodígio, Damon (Ryan Jamaal Swain) que é expulso de casa pelos seus pais após descobrirem que o jovem é homossexual; e a trans, Angel (Indya Moore) que vivia na mesma casa que Blanca e sonha em ter uma “vida comum como toda mulher”.

A série em nenhum momento transforma a vida dos personagens em 100% glamour, trazendo a tona toda a repercussão da AIDS na época na comunidade e como as pessoas que contraiam a doença eram deixadas apenas para morrer, já que não existia nenhum tipo de cura ou tratamento. Temos toda a questão religiosa também colocada em ponto, já que a primeira coisa que escutamos dá mãe de Damon é que ele precisa pedir perdão, caso contrário Deus irá puni-lo com a praga – que seria o HIV.

Ouvimos a voz daqueles que foram ridicularizados por serem diferentes, sendo todos eram de carne e osso por igual, mas como sempre aquilo que o humano não conhece – e muitas vezes não tenta conhecer – se torna uma ameaça e tratado de forma agressiva. Ryan Murphy dá voz para os personagens, e digo isso sem deixar ninguém de lado, já que até mesmo aquele secundário na história acaba ganhando seu espaço para falar e mostrar que também é importante.

Seguimos centrados também nos bailes que ocorriam, onde as casas desfilavam e mostravam o motivo de merecerem o tão e maravilhoso troféu. E se tem uma frase que escutamos muito na série com toda certeza é “The category is…”. A série está sempre girando em torno daquele ambiente, que faz com que cada um cresça de forma magnifica e emocionante. E já que estamos falando dos bailes, podemos já introduzir que a trilha sonora, direção de figurino e cenário merecem o maior prêmio do mundo, já que tudo é composto por detalhe e perfeição, deixando tudo sempre cheio de brilho e colorido, dando um ar bom e alegre onde todos podem ser eles mesmos.

O roteiro conta com palavras que sempre são muito significativas, como “mãe”, “filho”, “casa”. Não palavras que não estão ali por acaso, já que todos ali mesmo que não tenham o mesmo sangue, decidiram formar uma família para se apoiar, já que suas pessoas de sangue decidiram simplesmente abandona-las na sarjeta, invés de entender e apoiar aquele que carrega o mesmo sangue. Temos Blanca como a mãe que apoia seus filhos no que eles precisam, sempre mostrando o certo e errado, e pelo que vale a pena lutar nessa vida, para deixar seu legado após sua morte. Já Damon e Angel os jovens adotados por Blanca, formando um laço de irmandade que ambos precisam para se defender e apoiar – seja nos momentos bons e ruins. E entendemos que família não significa que precisa ser de sangue, mas é aquela que te apoia na derrota e na vitória, querendo apenas sua felicidade e não que seja alguém moldado de forma artificial para a sociedade.

Pose em nenhum momento transforma alguém em vilão, já que nós  humanos estamos sempre em um infinito aprendizado, e não quero dizer na escola, mas nas questões sociais de como conviver entre outros. No primeiro momento podemos não sentir muito afeto por Elektra, mas depois entendemos que ela é mais uma pessoa que também sofre com aquele mundo e apenas deseja se sentir bem com ela mesma e seu corpo, tendo que escolher entre o homem que se relaciona ou a cirurgia de mudança de sexo, ensinando uma grande lição que precisamos escolher aquilo que nos deixa feliz e não que agrade os outros, e que precisamos antes de tudo nos amar.

Outro que ganha muito destaque é Pray Tell (Billy Porter), que gerencia todos os bailes anunciando as casas e mandando soltar o som para a galera. O personagem trás consigo um humor que deixa o ambiente leve, mas também muito peso, já que também é diagnosticado com HIV e vive todo o drama de seu parceiro estar doente e que está cansado de ver aqueles que ama morrendo pela maldita doença. O personagem acaba sendo não só o melhor amigo de Blanca, mas também um mentor e pai para a personagem. Alguém que acaba tendo um destaque que não esperamos é Lil Papi (Angel Bismark Curiel), que ganha um episódio especial só seu mostrando o garoto traficante que só encontra esse estilo de vida para ganhar dinheiro, mas que com a ajuda de Blanca tudo pode mudar.

Já dois personagens completamente diferentes que tem um papel importante são Stan (Evan Peters) e Patty (Kate Mara), o casal classe média que acaba entrando para o mundo dos “ricos” após Stan iniciar um trabalho na Trump Tower. Mesmo que Patty ganhe mais voz para o final da temporada, é uma personagem super forte que bate a mão na mesa e mostra que pode se sustentar e que não precisa de ninguém para isso. Já Stan tem toda sua relação casal com Patty, mas que acaba se apaixonando por Angel, dando aquela novela mexicana que todos gostamos, mas de uma maneira super suave, não deixando de lado as questões importantes.

Pose carrega consigo uma mensagem super importante de respeito e família, junto de uma coisa muito importante na indústria do cinema que é a representatividade dando mais oportunidades – sendo a primeira série a trazer cinco protagonistas transgêneros em seu elenco regular. E que por mostrar toda uma história de forma honesta, sem polemizar ou até mesmo exagerar, merece ser coloca como a primeira da lista para o final de semana de maratonas.