Resenha – Justiça Ancilar

Justiça Ancilar, romance escrito por Ann Leckie e publicado pela Editora Aleph, é uma obra  que conquistou público e crítica, ganhando os maiores prêmios de ficção do mundo. Lançada lá fora em 2013, o livro foi vencedor dos prêmios HugoNebula e Arthur C. Clark mostrando que mesmo sendo uma obra de estreia poderia trazer qualidade.

Diferente de quase tudo o que já li, Justiça Ancilar não é um livro bonzinho com o leitor: somos jogados no meio da trama que varia de presente para o passado a todo momento num universo que não conhecemos, com personagens muito exóticos e em uma realidade tão diferente que demorará vários capítulos para você começar a entender o que está ocorrendo. 

De maneira geral, temos Breq, uma inteligência artificial buscando vingança pelos acontecimentos que ocorreram anteriormente. Sendo passado no espaço, Ann utiliza de uma linguagem simples em primeira pessoa, porém, opta por não nos explicar nada, jogando nomes, eventos, pessoas e locais para o leitor tentar se identificar. Confesso que inicialmente fiquei perdido com tantas coisas. Até o meio do livro as coisas já faziam mais sentido embora a sensação de estar perdendo algo nunca vá embora completamente. 

As razões para Breq querer justiça ou até como uma inteligência artificial funciona são revelados de maneira natural, então, não recomendo que leia o verso do livro por conter spoilers evitáveis. A sensação que tive lendo completamente às cegas foi surpreendentemente interessante e animadora: a cada nova descoberta era mais uma peça que se encaixava melhor no grande universo criado pela autora. E embora essas peças pareçam soltas, Ann consegue as colocar de maneira perfeita na obra, trazendo não somente uma sensação do conquista para com o leitor como também construindo a trama de maneira invejável.

O universo criado parece ser bastante complexo, mas Ann nunca foca demais em nada que não seja realmente relevante, o que é ótimo. Se temos alta tecnologia, Leckie quase nunca parece interessada em ficar explicando como as coisas funcionam naquele lugar, enchendo o leitor de questões desnecessárias ou explicações que no fim não explicam nada. A autora é sucinta naquilo que escreve e isso é um grande ponto positivo. Há espaço para maiores explicações em alguns pontos, porém nada que interfira demais no entendimento por parte do leitor. 

Embora o universo seja interessantíssimo e muito rico, o mesmo não pode se dizer de alguns personagens. A todo momento os personagens principais Breq Seivarden mudam, mas essas mudanças não são sentidas pelo leitor. A falta de desenvolvimento dos personagens não é algo que chega a incomodar, mas acaba por criar uma dificuldade em se ligar com os personagens que parecem ter apenas um objetivo e seguir para este objetivo custe o que custar. 

O enredo só tomará forma real – e fará sentido para você – no meio da obra, te deixando com aquela vontade de voltar todos os capítulos para entender aquelas palavras estranhas que agora você sabe o significado, e talvez a melhor coisa após terminar o livro seja realmente voltar. Ao chegar ao fim, senti aquela sensação de não ter captado cem por cento do que estava ocorrendo e isso não me pareceu frustrante de maneira alguma. Talvez a ideia de Ann seja essa mesmo: termos que revisitar essa incrível obra. 

Justiça Ancilar é único em todos os aspectos. Seja pela escrita cativante de Ann que não deixa o livro chato em nenhum momento, as aventuras de Breq ou até mesmo a animação do leitor quando descobre os fatos que estão ocorrendo, conseguindo juntar todos os pontos soltos que te deixaram arrancando os cabelos por não ter entendido nada no início. Mais uma vez, a obra se torna única por não ter pena do leitor e criar um universo tão interessante a ponto de te fazer continuar, mesmo que não esteja entendendo absolutamente nada. 

 

Prós

– Escrita

– Composição da Trama

– Livro Único

Contras

– Personagens Pouco Explorados

 

Editora Aleph                                  384 páginas                                   2018