Entrevista | Talessa Kuguimiya – autora da HQ ‘Memories’

Tivemos uma grande honra que entrevistar a quadrinista e autora, Talessa Kuguimiya e trazer um material muito bacana para vocês. Ela falou sobre a vida de quadrinista no Brasil, sobre sua HQ, Memories e um pouco de seu futuro. Leiam abaixo:

 

Estação Geek: Como é ser quadrinista no Brasil?

Talessa Kuguimiya: Atualmente, ser quadrinista no Brasil é algo realmente desafiador, além das dificuldades comuns que encontramos em qualquer área profissional, apesar de ter obtido mais reconhecimento por parte do mercado e do público nacional, ainda há muito a percorrer. Diferente do mercado internacional, o quadrinista brasileiro, muitas vezes precisa ser um profissional ou um produtor autônomo , como também, por vezes, precisa atuar ou trabalhar em outras áreas para que possa subsistir, obter recursos e realizar suas produções (publicações independentes), isso o leva a adquirir ou desenvolver, dependendo do quanto lhe é exigido, outras funções além da sua especialização artística, conhecimentos que envolvem toda a produção de uma publicação. O Brasil não possui uma tradição na área de quadrinhos como os Estados Unidos, o Japão ou mesmo como em alguns países europeus , para eles as HQs e livros fazem parte do seu cotidiano e já estão incorporados à cultura, a isso soma-se o fato dos brasileiros, uma grande parcela, não terem o hábito da leitura, consequentemente aqui ainda não existe um mercado consumidor forte, nem grande o bastante para absorver a quantidade de profissionais e publicações destes quadrinistas (novos e veteranos) que cresceu nos últimos anos. Atuar de forma independente, em parcerias com editoras (nacionais ou internacionais) ou com outros autores; conseguir patrocínios em editais, financiamento coletivo, etc. , são algumas das alternativas para manter e divulgar a produção dos quadrinhos, o que aumenta o desafio é o cenário da nossa realidade atual, tudo depende como os quadrinistas e os fatores internos e externos irão atuar, das escolhas que fizermos e das ações que tomarmos, quais os valores e aprendizados que vamos agregar neste período de crise, pois são com esses atributos que vamos tirar as pedras do caminho.

 

EG: Como nasceu o ‘Memories’?

TK: A inspiração para a história surgiu de uma vivência que tive de 2012 até 2016, foi o meu primeiro quadrinho. Minhas experiências até então estavam mais focadas em livros infantis ilustrados e animação. Por quatro anos ajudei os meus pais a cuidar dos meus avós, de 2012 até o falecimento deles em 2016. Com o início do tratamento paliativo, passei a morar na casa deles durante esses anos, nesta mesma época eu desenvolvia o meu TCC para a Graduação em Artes Visuais – Belas Artes SP, que abordava a vivência desse período, questões sobre a vida e a morte , a importância das memórias e o sentindo delas o que acabou se tornando também a fonte de inspiração para a série “Memories”. A experiência é algo que ajuda a amadurecer um trabalho artístico, com certeza foi o que me motivou a criar histórias, mas mais do que isso me ajudou a entender o outro e um pouco mais de mim mesma. Cuidar de alguém gravemente doente ou ter uma preocupação constante com pessoas que estão a sua volta tão queridas, é uma experiência enriquecedora, apesar das complicações e dificuldades, leva-nos a um mundo contemplativo, de pensamentos e reflexões, isso nos fortalece, nos torna conscientes de tudo que esta a nossa volta. Outras experiências pessoais ligadas a esse contexto, de idas e vindas a hospitais , internações e tratamentos também serviram como fonte de inspiração, uma delas, é mencionada no final da HQ, em curiosidades, foi um trabalho voluntário no hospital São Luis como contadora de histórias para crianças .

 

EG: Quanto tempo foi para criar cada volume e o processo de criação?

TK: A produção de cada volume levou em média de 2 a 3 meses (roteiro e arte finalizada) (P.S: Isso não é uma regra , cada trabalho e cada artista tem o seu ritmo ideal). Meu interesse maior sempre foi o modo como as histórias são contadas, o caminho que a história trilha para chegar ao final e não o final em si. As histórias aparecem na minha mente como um filme, a imagem sempre vem primeiro, isso faz com que a história tenha fluidez, o ato de escrever é quase instintivo, a partir desse momento cada elemento, tanto a imagem como o conteúdo da história, surge e se encaixa naturalmente na cena ou no quadro. Com “Memories” aconteceu da mesma forma.

A produção começou durante o tempo em que fiquei na casa dos meus avós e continuei depois da morte deles. As memórias fazem parte de um processo de assimilação contínua . Em meados de 2016 lancei o primeiro volume de “Memories” e o quarto e último volume foi publicado no primeiro trimestre de 2018. Utilizei papel sulfite 90 g\m e grafite 0.9 para desenhar as páginas e as finalizava digitalmente , quando voltava para a casa (uma vez por semana) precisava acrescentar os balões, sombra e luz, terminava o máximo de páginas que podia e logo retornava para a casa dos meus avós. Desde o começo queria que em cada volume houvesse uma mudança de traço, do mais simples (quase infantil) para o mais carregado e rascunhado, que acompanhasse o ritmo, a atmosfera e o desenvolvimento da história ao longo da série.

A intenção foi construir uma narrativa visual que traduzisse a dinâmica de como as lembranças\ memórias surgem para nós. E isso abriu possibilidades narrativas. Procurei construir momentos fragmentados, que se intercalassem, mas que ao mesmo tempo o leitor ainda tivesse a sensação de uma sequencialidade\continuidade. O fato do leitor precisar ler e reler as páginas, ir e voltar na leitura para acompanhar e entender a história, foi construída como as memórias se apresentam em nossas mentes, muitas vezes sem ordem cronológica, soltas como peças de um quebra cabeça , que precisam ser juntadas para fazer sentido e ter a compreensão do todo. No começo, a série era para ser um Oneshot, já que produzir séries ou miniséries no Brasil não é aconselhável, ainda mais sendo a minha primeira produção de quadrinhos, porém “Mémories” realmente não poderia ser contada em um único volume. Minha preocupação foi não deixar um intervalo de tempo muito grande entre o lançamento de um volume e outro, pois isso poderia desmotivar o leitor a acompanhar o trabalho.

 

EG: Quais são suas inspirações de HQs? Seja nacional ou internacional.

TK: As minhas inspirações e primeiras referências surgiram na infância. Antes dos quadrinhos, foram os desenhos animados, como: Fantasia, Bambi e Branca de Neve (Produções da Disney), Akira (Katsuhiro Otomo), Mukashi Banashi (Anime de contos antigos japoneses), Peter Rabbit (Beatrix Potter) , série animada britânica que passava na TV Cultura e Meu Vizinho Totoro, primeiro filme de Hayao Miyasaki que assisti em VHS, mas isso não me desmotivava. Mais tarde tive acesso às HQ’s e os principais que me marcaram foram: Tin tin; Asterix; Little Nemo; como também, tenho enorme interesse nos desdobramentos do mangá e principalmente em sua narrativa. Cito alguns dos meus preferidos: Sazae -san; Showa Genroku Rakugo Shinjuu de Haruko Kumota, Monster de Naoki Urasawa, Uzumaki de Junji Ito, Ristorante Paradiso de Natsume Ono, Zero eterno de Naoki Hyakuta e Souichi Sumoto , Gen, pés descalços de Keiji Nakazawa, Black Jack de Osamu Tezuka, entre tantos outros.

 

EG: Quais são suas próximas ideias de histórias para o futuro? Se puder dar algum spoiler para nós é claro! hahahah

TK: Acho que já está na hora de anunciar os próximos projetos… Ao longo da série acabei lançando outros títulos, a maioria independentes, como “Olho Verde” (terror) e “Minski” (livro de humor) livros que são interativos, ambos possuem interação entre linguagens e mídias por meio de QRcode, é uma ideia que tive, uma inovação que quis trazer para as publicações gráficas. E mantenho esta mesma proposta para os próximos projetos : Segundo volume de Minski e “Cinco Vermelhos” (História sobre samurais, inspirada na história de meus antepassados e com referências históricas também da nossa família). Ambos terão interação entre mídias (livro físico; animação; música, etc.) Por enquanto é isso o que posso dizer…

 

EG: E para finalizar. Por que as pessoas deveriam ler ‘Memories’?

TK: Como toda linguagem artística, sempre há a intenção de oferecer uma experiência, de sensações, sentimentos e reações. A minha proposta é de reflexão e também de dividir certas experiências sobre uma temática que faz parte da vida e assim estabelecer uma ligação com o leitor. Como em Memories, são garotos diferentes, mas que tem sentimentos, sensações comuns a todos, como as memórias de cada um, as experiências podem divergir, mas existe uma coisa que todos temos em comum, a vida , a morte e as memórias inerentes ao ser humano.

 

Mais informações sobre Talessa Kuguimiya:

Talessa é Bacharel em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo; Designer Gráfica pela ABRA – Academia Brasileira de Artes; Pòs-Graduada em Animação 2D pela Faculdade Melies de Tecnologia e Profissional treinada em contação de histórias pela Cruz Vermelha Brasileira – Filial São Paulo.

Talessa é ilustradora, artista independente, contadora de histórias e quadrinista. Livros infantis ilustrados da Acerola Publishing em 2013. Participou na coleção “Visões de Guerra” da editora Istituto HQ em 2016, tem publicações da editora Criativo em 2017.

Autora de publicações independentes como Memories, Minski, Olho Verde, além de livros infantis e produtora de animações independentes. O primeiro curta animado “Yayá” participu da Semana de Arte e Cultura USP 2011 que faz parte do acervo da Casa de Dona Yayá (CPC USP).

Participou de diversos eventos como, 22 ° Fest Comix 2015, Banca de Quadrinistas do Itaú Cultural 2016 – 2017, Ugra Fest 2017, HorroCon 2017. Mumia – Mostra Udigrudi de animação 2017 e Festival Guia dos Quadrinhos 2017-2018.

Entrevista feita pela equipe Estação Geek