Resenha – A Incendiária

A Incendiária, romance de Stephen King, é uma das primeiras obras do autor que acabou ficando obscura devido aos lançamentos frequentes de outros trabalhos do próprio autor. Sendo lançado entre A Zona Morta e Cujo, A Incendiária ainda é pouco conhecido do público brasileiro já que foi lançado há tempos e nunca mais teve uma reimpressão. A Suma então resolveu dar uma nova roupagem, adicionando conteúdo extra e uma belíssima nova edição.

Como premissa temos Andy McGee, um professor que se submete a um teste para uma nova droga e acaba com poderes psíquicos, e sua filha Charlie, capaz de atear fogo onde quisesse com o poder da mente, correndo da Oficina, o órgão do governo que deseja capturar pai e filha com o objetivo de usar seus poderes para fins militares.

Ao longo de todo o livro acompanhamos pai e filha fugindo dos militares da Oficina enquanto temos lapsos sobre o passado de Andy, sua esposa morta pelo governo e como os poderes de sua filha desenvolveram. De maneira geral, a estrutura do livro é competente no que se dispõe a fazer e não há grandes erros que afetem a leitura de maneira a incomodar o leitor.

As coisas seguem para um caminho mais complicado quando observamos a imaturidade da escrita de Stephen King naquela época. Sendo lançado dois anos após O Iluminado, A Incendiária comete alguns erros que às vezes são imperdoáveis. Temos quase quinhentas páginas em um livro que possui pouca ação. Com esse título, esperávamos que Charlie fosse usar seus poderes com grande frequência, ou que teríamos cenas de pirotecnia porém, o que encontramos é um livro focado em Andy e em sua vida enquanto a garota só exibe seus poderes raramente, parecendo um artifício do autor em tentar criar uma expectativa que no fim não é cumprida.

Como de costume, Stephen King escreve personagens críveis, cheios de vida e complexidade, criando seres únicos que parecem reais. Embora Andy seja o personagem principal da história, sua dor e angústia em salvar sua filha ficam expostos sempre, deixando o leitor com uma sensação de imediatismo o tempo todo. Além disso, Charlie cumpre o seu papel como criança – embora ninguém seja capaz de escrever crianças de maneira perfeita -, salvando seu pai sempre que possível e lidando com seus poderes que podem destruir tudo a sua volta.

Se por um lado temos os mocinhos muito bem retratados, os vilões não conseguem ser reais em nenhum momento. Rainbird, o grande vilão, é uma caricatura de algo não identificável, parecendo ser mal pelo fato de ser um vilão. No fim, Stephen King tenta usar de pedofilia para criar rejeição do leitor com o personagem, mas isso soa ainda mais forçado vindo de um personagem que é incapaz de manter a si mesmo. Os reais motivos de quererem capturar Andy e Charlie nunca parecem verdadeiros o bastante e os planos da Oficina parecem estarem lá porque o autor assim quis.

A edição da Suma está impecável, sem qualquer tipo de erro e com uma arte invejável: capa dura e páginas com efeito de queimado dão um toque a mais para uma edição merecida pelo público brasileiro. Fazia tempos que uma edição tão caprichada não aparecia no Brasil, ainda mais com um livro que teve sua última publicação tanto tempo atrás.

A Incendiária não é um livro ruim, mas se olharmos as obras de Stephen King de maneira geral, ela se torna uma leitura muito inferior à maioria do que lemos, seja pela falta de estrutura nos vilões ou sua necessidade de criar uma ideia que não parece real.

Prós

– Escrita

– Personagens Principais

Contras

– Vilões

– Tamanho

 

Editora Suma                  450 páginas                                   2018