Entrevista | Raphael Fernandes, editora Draco

Tivemos uma oportunidade muito bacana de conversar com Raphael Fernandes, editor da Draco.  A editora Draco nós presenteia com muitas Graphic Novels e coleções de terror, como ‘O Despertar de Cthulhu‘ em quadrinhos e a série ‘Tempos de Sangue‘. Vem conferir nossa conversa com esse cara incrível e que foi super atencioso conosco:

Estação Geek: Como é ser quadrinista no Brasil?

Raphael Fernandes: Posso dizer que é uma das coisas mais incríveis que eu já pude vivenciar. Poder contar todas as histórias que passam pela minha cabeça e ainda realizar sonhos que nunca imaginei, tem sido muito especial. Quando era garoto, eu nunca nem pensei que era possível fazer HQs no Brasil e quando a oportunidade de editar quadrinhos surgiu, fiz de tudo para que pudesse continuar. Por sorte, eu fui parar na revista MAD e lá me vi obrigado a estudar desenho e roteiro, não só edição e tradução como a maioria dos meus colegas. Os quadrinhos não só salvaram a minha vida, como permitiram que eu descobrisse a minha vocação de contador de histórias. Foi um grande resgate da minha vontade de escrever e dos muitos anos jogando RPG.

Hoje, eu posso dizer que sou uma pessoa feliz e realizada por ter a oportunidade de fazer quadrinhos, ter minha própria editora com pessoas que eu amo e ver todos meus devaneios se materializando. O Raphael Fernandes criança ficaria muito orgulhoso das HQs de horror, cyberpunk, fantasia, scifi e outros gêneros que tenho produzido! Sou um moleque da quebrada realizando coisas incríveis, sou um privilegiado.
EG: Como é dividir a função de editor e roteirista?
RF: Muito bom! Afinal, eu tenho uma experiência muito maior como editor e acaba que já escrevo pensando no projeto como um todo. Sou muito crítico com o meu trabalho e tento extrair o melhor, nunca me acomodando em fórmulas prontas. Quando me sinto estável, trato de inventar algum projeto completamente fora do meu eixo para me colocar em teste. Também é muito bom, pois vejo muitos roteiros e com o tempo você aprende quais os erros mais comuns dos outros roteiristas. Graças a isso, eu sempre estarei evoluindo e tentando fazer histórias diferentes de tudo o que recebemos. Tenho utilizado desse duplo conhecimento para treinar minha equipe de roteiristas e também dar alguns cursos sobre como melhorar a escrita de roteiro para quadrinhos.
EG: Você está trabalhando em algum novo projeto no momento?
RF: Na verdade, eu vivo enfiado em uns 20 projetos ao mesmo tempo. Tanto editando como escrevendo, mas posso dizer que nossos planos para este ano envolvem algumas das melhores publicações que já pude trabalhar. Certamente, a Draco vai surpreender os leitores com várias HQs incríveis e livros bem legais também. Só pra complementar, estou escrevendo vários quadrinhos ao mesmo tempo, mas tem um álbum que eu estou realmente me desafiando e espero que fique tão legal quanto quero que seja. Sim, será de horror! 
EG: Como você vê o cenário de quadrinhos nacionais atualmente?

RF: Sou leitor desde os 4 anos e dá pra falar tranquilamente, vivemos a melhor fase do quadrinho nacional dos últimos 30 anos. Graças a iniciativas dos autores independentes, a valorização dos nossos quadrinistas pelas grandes editoras dos mundo todo e, acima de tudo, pelo crescimento e profissionalização de roteiristas, autores, desenhistas, editoras, letristas e outros envolvidos no processo de produção de uma HQ.

Até mesmo os projetos de estreia, que vemos no Catarse e em outras plataformas de financiamento coletivo, já possuem uma qualidade de edição, escrita e arte muito superiores aos de alguns anos atrás. 
Posso falar também que as editoras tem produzido muita coisa boa e revelado novos e velhos talentos do mercado, como João Pinheiro, Laudo Ferreira, Marcelo Quintanilha, Cristrina Eiko, Marcelo D’Salette e muitos outros. A lista é infinita.
Você hoje consegue encontrar bons quadrinhos nacionais nas principais livrarias, comic shops e nos muitos eventos espalhados pelos quatro cantos do país, mas com destaque especial para a CCXP e o FIQ. Sem falar nas muitas iniciativas de quadrinhos online e dos projetos transmídia. 
Agora que estamos vendo a praia, temos que remar com muito mais vontade para que o mercado tenha terra firme.
EG: A Draco trabalha com a possibilidade de começar a lançar seus materiais em banca? 

RF: Nosso objetivo nunca foi lançar nossos quadrinhos em banca! A Draco é uma editora que trabalha com mercado de livrarias e comic shops, que tem uma grande demanda de leitores. Infelizmente, as bancas já não tem o mesmo impacto de antes, muitas vivem mais de outros produtos vendidos – cigarros, acessórios eletrônicos, etc. 

Porém, nós trabalhamos com algumas bancas selecionadas em São Paulo, que são distribuídas através do Worney, que é um grande parceiro da Draco. Porém, alcançamos nossa meta de estar nas principais livrarias e comic shops do país, virtuais e físicas. Já dá pra encontrar livros e quadrinhos da Draco na Saraiva, Cultura, FNAC, Amazon, Comix, Livrarias Curitiba e muitas outras.

EG: Quais os lançamentos da Draco para os próximos meses? Tem algum que você destacaria? 
RF: Não posso revelar muita coisa, mas estamos preparando um material para levar ao FIQ. Entre eles, está uma HQ de não-ficção sobre a Polícia Militar, que acreditamos trazer uma questão muito importante para a população e pros próprios policiais. Também estamos com um título de cyberpunk que acabou de sair: Cangaço Overdrive, que mistura sertão, cangaceiros, hackers, corporações e outras maluquices. No mesmo estilo, tem uma coletânea prontinha pra sair e que vai fazer muita gente pensar nessa distopia que já vivemos.
Por fim, tem o primeiro álbum de um dos autores mais queridos da casa e será uma aventura psicodélica pelo mundo da visão.Tem bastante coisa a caminho e para ficar ligado é só acompanhar o nosso site (www.editoradraco.com) e nossas redes sociais (@editoradraco).
EG: A Draco pretende estar presente em eventos no Rio de Janeiro, como a Bienal do Livro e outras vendendo seus titulos?
RF: Na verdade, nós estivemos por aí no final do ano passado justamente durante a Bienal do Livro, que foi a nossa segunda. Fazemos eventos por todo o Brasil e cada vez mais fechamos o mapa do país com a nossa presença. Temos autores de todos os estados e isso favorece bastante. Só para ter uma ideia, apenas em 2017, nós estivemos em Fortaleza, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Campinas e muitas outras cidades do país.
O principal objetivo da Draco é fazer quadrinhos e livros originais feitos para você que quer ver ficção de gênero com a sua realidade. Ou seja, fazemos ficção fantástica sobre lugares, pessoas, situações e modos de vida que estão a sua volta.
Entrevista feita pela equipe Estação Geek