Resenha – O Sol na Cabeça

O Sol na Cabeça é o livro de estreia do escritor carioca Geovani Martins. Lançado pela Companhia das Letras, Geovani é um autor que sofreu para ter seu trabalho reconhecido: nascido em Bangu – uma favela do Rio de Janeiro -, ele viu sua vida mudar constantemente enquanto ia morar em diversas favelas ao longo de sua infância. Teve que realizar diversos trabalhos para se sustentar até tirar um ano sabático em busca de se tornar um escritor como tanto queria. Seguindo sua carreira, Geovani foi convidado para a FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty – duas vezes, onde conseguiu apresentar seu trabalho e logo foi contratado pela editora. 

Diferente do que estamos acostumados, Geovani começa sua carreira com um livro de contos curtos repletos de personagens onde o tema principal gira sempre em torno das drogas. Por ser um livro de contos, achei a temática bastante repetitiva e pouco interessante. Raros são os contos que parecem se distinguir entre os outros e ainda mais raros são aqueles excelentes, o que realmente é uma pena. 

Gostaria de ver um Geovani que não necessariamente precisa falar da favela o tempo todo ou, se quisesse falar sobre o assunto, que desse sentimentos aos seus personagens, mostrasse suas dificuldades na vida da favela. Enquanto isso temos contos que são mais um ode ao uso de maconha do que uma tentativa em se diferenciar do que já lemos em todos os lugares. 

Porém, O Sol na Cabeça não é um livro sem suas grandes virtudes: Martins consegue dar vida aos personagens colocando seus pensamentos em lugares perfeitos servindo como uma visão maior sobre eles. Embora quase sempre os personagens se pareçam com o próprio autor, há sempre um resquício de outro alguém neles. As histórias são bem escritas em sua totalidade e são interessantes quando têm algo a dizer. 

Entre os melhores contos destaco EspiralO Caso da BorboletaO RabiscoA Viagem e Sextou. Todos possuem um tom de realidade, de uma narrativa não inventada, de que Geovani realmente passou por tudo aquilo. Pena que eles acabam no clímax, abruptamente, deixando o leitor com uma sensação de que aquele conto ainda poderia render mais e ser melhor explorado. Mesmo assim, são contos que geram uma sensação de reflexão por parte do leitor, se aproximando mais do que seria uma vida em um ambiente tão diferente do que lemos por aí. 

A edição do livro está com um ótimo acabamento. Tanto a capa quanto o papel usados são de excelente qualidade, coisa que sempre vemos na Companhia das Letras. Senti um pouco a falta de uma introdução do próprio autor explicando como o livro tinha sido concebido, porém acredito que isso pode ser ajustado em edições posteriores. 

O Sol na Cabeça às vezes parece uma oportunidade perdida e às vezes parece ser um livro que se perdeu em tentar mostrar uma faceta diferente do que estamos acostumados a ver. Talvez seja a tentativa do autor em confirmar alguns preconceitos que temos exibindo o lado humano de uma pessoa nascida na favela. Por fim, Geovani Martins parece ser um escritor muito promissor, com uma escrita crua e real que precisa criar um foco maior ao tentar desenvolver suas histórias. 

 

Prós

– Escrita

– Personagens Reais

Contras

– Desfocado

Companhia das Letras                     114 páginas                                   2018