Entrevista exclusiva com Júlia Câmara, a roteirista brasileira do terror, ‘Ocupantes’

Não se vê filmes de terror como antigamente. Muitos apelam para um jumpscare constantemente durante o longa ou apenas fazem algo que já vemos normalmente, mas isso não é o caso de Ocupantes (Occupants em inglês), filme do diretor Russ Emanuel, em conjunto com a roteirista, Júlia Câmara.

Não só tivemos a chance de assistir ao filme, como entrevistar Júlia, que respondeu algumas de nossas dúvidas sobre sua vida e a produção do longa. Leia abaixo:

Estação Geek: A primeira pergunta que temos é sobre o assunto abordado no filme. O documentário que a personagem Annie (Briana White) faz com seu marido Neil (Michael Pugliese) sobre a mudança de alimentação e a questão do surgimento de um portal para outra dimensão é algo que vocês pesquisaram a possibilidade de existir realmente ou foi apenas criado para o longa? E falasse um pouco sobre o processo de produção como que foi.

Júlia Câmara: Foi algo que eu criei. Depois de viver muitos anos em Los Angeles onde as conversas sobre coisas exotéricas rolam direto, e ainda depois de escrever o roteiro para o Área Q senti que muito papo rolava sobre assuntos entre ufologia, ficção científica e outras questões do tipo. Em Los Angeles a cada semana alguém está fazendo uma dieta nova e falando sem parar dos benefícios que comer ou não isso ou aquilo trazem para a saúde, eu achei que a ligação entre a alimentação e abrir portais para outras dimensões era uma conexão interessante.

EG: E como foi trabalhar com o diretor Russ Emanuel, na questão de escolha de elenco e também na hora de mexer no roteiro. Vocês fizeram tudo juntos desde o inicio ou separaram bastante coisa para cada um fazer? Como que foi essa experiência?

JC: Quando eu conheci o Russ a terceira versão do roteiro já existia. Ele foi trazido para o projeto pelo nosso produtor Howard Nash. Nós três trabalhamos juntos desenvolvendo o roteiro. Fazendo pequenas mudanças, e achando as melhores maneiras de aperfeiçoa-lo para que o produto final ficasse o melhor possível. Desde o começo eu senti que eles tinham uma visão muito similar a minha em relação a história e o filme. Eu acabei a última versão do roteiro no dia 18 de abril de 2014. No dia 27 de abril minha filha nasceu, então enquanto a equipe trabalhava na pré-produção, eu estava completamente dedicada à minha pequena. Em setembro as filmagens começaram, e eu estava ainda em licença maternidade. Mas fiz questão de ir visitar o set algumas vezes. Eu acabei até levando a minha filha, que tinha uns cinco meses na época, comigo. Para mim estar no set é sempre uma chance de poder aprender um pouco mais. Principalmente se não estou no set como diretora. Foi muito bom ver o processo do Russ de dirigir atores, lidar com a equipe e construir um ambiente de trabalho muito profissional e eficaz.

EG: Agora falando um pouco de sua carreira. Devo dizer que sou uma fã, por motivos óbvios que é alguém do mesmo País que o meu, nosso querido Brasil e uma mulher fazendo algo que amo muito, o cinema. Como foi essa transição de sair do Brasil para outro lugar e seguir essa carreira de roteirista?

JC: Eu sai do Brasil para estudar cinema. Quando eu decidi ir para os EUA, no final dos anos 90, o cinema brasileiro estava completamente parado. Eu realmente achava que não teria como fazer cinema no Brasil. Hoje em dia a história é bem diferente. O cinema é diferente no mundo todo, até por causa das mudanças na tecnologia, que fizeram o cinema mais acessível para todos os cineastas do mundo, acredito. Quando eu comecei a estudar, eu não sabia exatamente o que eu queria fazer. Na verdade, eu não tinha a menor ideia de como um filme era feito. Na faculdade mesmo eu fui descobrindo a paixão por escrever. E escrever roteiros é completamente diferente de qualquer outro estilo de literatura. Eu escrevi vários roteiros para longas, acho que uns 20 até agora. Muitos deles eu não mostraria para ninguém hoje em dia. O processo de aprendizado e de desenvolver o seu próprio estilo e voz é longo e meio complicado. Exige muito autoconhecimento e muita coragem. A rejeição é algo diário na vida do roteirista. Foram dez anos entre a chegada nos EUA e o meu primeiro longa.

EG: A última pergunta seria mais sobre os planos para o futuro. Se já existem coisas em mente, continuar seguindo essa reta para o terror/suspense ou se já existem outras ideias em mente para uma produção?

JC: Eu acabei de entregar a primeira versão da sequencia de Ocupantes para o Russ e o Howard. Então, espero estar vendo a sequência completa no próximo ano.

Além disso, estou em pós-produção com dois filmes; um curta rodado em São Paulo e em Português, e um longa rodado em Los Angeles em Inglês e Português.  “Intangível” é um curta baseado em um roteiro para um longa-metragem. O filme é sobre o espírito de uma mulher solitária que se apaixona por um vizinho que recentemente se tornou cego. O elenco inclui Renata Hallada e Gustavo Braunstein. Depois do curta finalizado, a ideia é de rodar o longa aqui no Brasil.

In Transit” é um longa-metragem sobre duas pessoas que se conhecem no aeroporto de Los Angeles enquanto esperam por seus voos. O elenco do filme inclui Branca Ferrazo, Oliver Rayon, Al Danuzio. A previsão de lançamento do filme é Setembro/Outubro deste ano.

 

Vocês podem ler nossa crítica no link abaixo, onde demos nossas considerações sobre o longa. E também o trailer de Ocupantes, que com toda certeza pode atrair muitos a conhecerem ainda mais essa história.

Críticahttp://estacaogeek.xpg.com.br/2018/04/05/resenha-occupants/