Resenha – Se o Passado Não Tivesse Asas

Qual a diferença das realidades de dois países distintos? Qual a variedade de problemas e enfrentamentos entre esses países? Se tentarmos contextualizar isso, um país africano teria as mesmas dificuldades que o Brasil? Até onde podemos comparar esses países e onde podemos chegar com essas comparações?

Pepetela, escritor angolano, usa sua experiência para trazer a realidade de seu país para este lado do globo, reunindo não só sua sabedoria como também o modo como lidou com esses problemas. Se o Passado Não Tivesse Asas é uma obra que retrata exatamente as dificuldades que encontramos não só na Angola, como também no Brasil entre outras partes do mundo.

Logo de cara encontramos as duas personagens principais: Himba e Sofia. De um lado temos uma garota que se vê perdida na cidade após ser atacada por criminosos enquanto seus pais tentavam fugir para a capital Luanda. Do outro, temos uma jovem angolana que vê sua vida crescer e o quão problemático isso pode se tornar para quem nunca teve muito.

Diante de adversidades tão distintas, Pepetela usa o velho recurso de trocar personagens durante os capítulos, criando assim uma fluidez interessante para quando estamos cansados de Himba ou Sofia. Além de termos essas duas personalidades como sendo as principais, o foco também é dado para os inúmeros personagens secundários que enriquecem a obra não importando se são mocinhos ou bandidos.

Antes de começar a ler a obra é indicado que você conheça o mínimo sobre a história do próprio país. A Angola não foi, e continua não sendo, um país fácil de se viver. Permeado por uma guerra civil desastrosa que durou mais de vinte e cinco anos e deixou mais de meio milhão de mortos, é de se elogiar o trabalho de Pepetela em focar na vida das garotas enquanto encontramos os estragos da guerra na vida de ambas.

Tendo em mente como o tema da própria história do país é vasto, rico e altamente complexo, Pepetela foi por um caminho não-óbvio, deixando que o leitor apenas sinta como uma guerra e seus resquícios podem influenciar a vida de uma geração inteira. Himba, por exemplo, tem sua família devastada e é lançada à própria sorte ao tentar fugir da guerra que avança para perto de seu lar. Acompanhamos a garota viver nas ruas, se alimentar de restos enquanto ainda sonha em poder reencontrar sua família.

Embora vejamos as narrativas por olhos de pessoas jovens, é notável como os mais velhos se sentem quanto aos fatos no decorrer da história. Somos levados para lugares de desespero, ódio e total ausência de poder público até encontrarmos a salvação em lugares onde ainda existe esperança. Diante de cenários tão obscuros e cheios de dor exibidos na saga de Himba, Sofia surge como uma tentativa de suavizar o que lemos deixando seus problemas para o lado mais pessoal possível ao tentar ou não ter ambições em sua vida pacata.

Meu único problema ao ler Se o Passado Não Tivesse Assas vai de encontro com o encerramento, ao guiar os personagens para opções à lá deus ex machina, surgindo soluções que parecem boas demais para serem verdade. Além disso, Pepetela opta por dar foco central para Himba em alguns momentos, terminando desfechos interessantes que foram iniciados em Sofia, nos deixando com uma sensação de apressamento da obra e sem grandes conclusões.

Por fim, Pepetela consegue não só tocar em um tema que já foi diversas vezes explorado como também consegue dar vida a personagens que parecem sair de uma realidade muito parecida com a nossa, com dilemas semelhantes e finais esperançosos mais parecendo um tipo de wishful thinking do que uma verdade real.

 

Prós

– Personagens Marcantes

– Estilo da Escrita

– Temas Abordados

Contras

– Final Apressado

Editora Leya                                      368 páginas                                      2017