Resenha – Não Me Abandone Jamais

Qual a diferença entre um drama e uma ficção científica? O que divide um gênero do outro? E, principalmente, o que é responsável por dizer onde tal obra se encaixa em um gênero, mas não se encaixa em outro? Partindo desse pressuposto, Kazuo Ishiguro nos consagra com uma obra que navega entre os gêneros sem nunca parecer ter seu cerne fincado em qualquer um deles. 

Diante de tanta literatura que se mostra completamente definida, mergulhada em sua própria secção de uma biblioteca, Não Me Abandone Jamais foge de tudo o que já nos foi apresentado. Temos aqui uma obra que não faz questão alguma de tentar se encaixar, seja isso algo bom ou ruim. Só caberá ao leitor avaliar essa falta de gênero que o autor nos coloca à prova. 

Tendo ganho o prêmio Nobel de Literatura deste ano, Kazuo transforma sua obra em algo místico que parece se tornar atemporal quanto mais você se aprofunda na trama. Estamos distantes de uma obra que possui começo, meio e fim, somos atirados ao infinito mar de perguntas sem qualquer resposta, guiados apenas pelo instinto de que tudo será explicado no fim e sairemos satisfeitos com os resultados mesmo que ele não esteja muito correto. 

Não Me Abandone Jamais foge de tudo que já li em minha vida. Seja pelos personagens robóticos e apáticos, seja pela trama que promete muito sem quase nunca entregar ou o segmento que Ishiguro tenta entrar sem parecer presunçoso em qualquer momento. Saiba que se espera uma trama que te trará respostas ou personagens que te cativarão, esqueça esse livro. Mesmo com o nome bonito até parecendo um livro à lá Nicholas Sparks, Não Me Abandone Jamais não é um livro bonito, feliz ou romântico. Por cima, ele é um livro sobre pessoas. 

Sem adentrar muito nos spoilers, o livro narra a vida de Kathy H., uma garota que nos conta em primeira pessoa tudo o que sabe sobre sua vida, mesmo que ela não seja das mais animadas que podemos encontrar. Porém, o livro inteiro é permeado por mistérios que te atiçam até a última linha da obra. Quem é Kathy? Onde ela mora? O que é aquele lugar? Logo no início sabemos que ela e os outros alunos daquela escola não são normais. Mas o que eles realmente são cabe a você descobrir. 

Embora bastante asséptica, a escrita de Kazuo é às vezes limpa, outras vezes é rebuscada e parece destoante, principalmente quando vemos personagens tão próximos conversando entre si. Tudo isso parece ter uma razão ou é subentendido por cada um que lê. Creio que ao terminar o livro cada pessoa terá uma explicação para os acontecimentos do livro de maneira distinta.  

Por outro lado, justamente por fugir da ideia de uma obra completa e redonda, Kazuo trombará com pessoas que não estão acostumadas ou não tem afeição por esse tipo de literatura e elas não poderão ser culpadas. Por trazer uma capa simples e um título desses, é muito provável que teremos pessoas se sentindo enganadas pela premissa do livro. 

Mesmo sendo ambíguo e me causando estranheza em diversas partes, é inegável que Ishiguro tenha talento para continuar instigando o leitor mesmo sem nunca dar as respostas que estamos esperando. Terminamos o livro com aquela sensação imediata de ter que ler tudo de novo, seja por informações que possivelmente perdemos ou pela necessidade humana de preencher as lacunas que perguntas sem resposta deixam. 

Não Me Abandone Jamais é um livro para poucos, seja por sua escrita rebuscada, sua falta de respostas ou até sua trama simples, Kazuo Ishiguro entra na mente humana e traz as perguntas certas, capturando o leitor e deixando uma obra que poderia ser respondida sem problemas para o leitor tentar encaixar as peças ele mesmo. 

 

Prós 

– Trama Envolvente 

– Questões em Aberto 

– Gênero Fluído 

 

Contras 

– Literatura de Nicho 

 

 

Companhia das Letras                                       343 páginas                                      2017