Resenha – Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?

Com o anúncio da sequência do clássico Blade Runner para o ano de 2017 enquanto sua obra literária completa cinquenta anos em 2018, a Editora Aleph, que já possuía os direitos do livro resolveu lançar uma edição comemorativa nos mesmos moldes que havia feito com Laranja Mecânica. Assim, hoje temos um livro recheado de extras que vão desde um prefácio elaborado até a última entrevista de Philips K. Dick um pouco antes do lançamento de Blade Runner. 

Enquanto Blade Runner é uma adaptação, Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? é o nome original da obra literária e, embora ainda haja bastante confusão, o título nada mais é do que um questionamento que o próprio leitor pode ter durante toda a leitura. No livro, temos a história de Rick Deckard, um caçador de recompensas que “aposenta” – mata – androides que vivem na Terra apocalíptica após uma guerra que não temos muita informação.  

Embora curto, Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas é um livro poderoso mesmo que hoje pareça datado. Ao longo de toda a leitura somos induzidos a perguntas sobre homens vs máquinas, sobre o valor de uma vida não humana ou o que torna os humanos seres superiores aos androides. O livro é permeado por esses questionamentos sem nunca apresentar respostas concretas deixando você, leitor, capaz ou não de respondê-las. Nenhum dos personagens é carismático e isso parece proposital, para colocar eles em uma outra realidade da nossa e não criarmos vínculos com qualquer um. Assim como a Terra, eles se tornam estéreis de qualquer sentimento, seja ele entre amigos ou até entre esposa e marido.  

Os pontos mais altos não ficam na escrita de Philip, mas sim em como o autor consegue jogar perguntas sem nunca fazê-las. Você não verá o autor se questionando ou os personagens tendo divagações ou epifanias, tudo fica nas entrelinhas, no mero comentário curto que Rick solta ou que qualquer outro androide resolve responder.  

Dado momento Rick diz que precisa matar o androide em sua frente pelo fato de ele ser um androide e temos uma resposta sensacional do autômato ao questionar se Rick também não seria um androide. Durante o livro isso nunca mais é mencionado, mas Rick parece sempre querer se afastar ao máximo possível dessa pergunta, fazendo coisas que androides não fariam. No fim, fica ao leitor achar que Rick é ou não um androide e quais seriam as consequências disso.  

Com cinquenta anos a obra já parece antiga. Os temas abordados, embora muito pertinentes e inovadores para a época, não são tão fortes ou originais como hoje. Se temos como tema principal a consciência humana ou o que faz um humano ser um humano, essas realidades são e foram apresentadas cotidianamente em outros meios. Porém, é sempre interessante ver um futuro imaginado por outra pessoa, mesmo que ele não seja dos melhores. 

A vida de Philip K. Dick não foi das melhores. Conforme temos no prefácio bem elaborado, Dick sofria de dependência química e parecia criar suas melhores obras sempre sob influência de drogas. Com diversos casamentos conturbados e envolvimento frenético em religião, é de se estranhar que ele tenha conseguido ser tão produtivo como foi. Pouco antes do lançamento de Blade Runner, Dick morre sem nunca ter visto sua obra adaptada. Na entrevista, podemos ver como ele parece animado com a realidade de ver sua criação refletida no cinema.  

Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas é um clássico da ficção científica que mais se preocupa em colocar sutilmente perguntas para todos nós, com uma premissa interessante e personagens apáticos, o livro é muito mais uma obra que tenta nos conectar com problemas futuros do que uma tentativa de inventar um gênero. 

 

Pros: 

– Indagações Escondidas; 

– Premissa; 

– Escrita; 

 

Contras: 

– Datado; 

 

 

Editora Aleph                           2017                             332 páginas