Resenha – Better Call Saul (1ª Temporada)

Criada para ser um programa derivado do inesquecível Breaking Bad, a série Better Call Saul levantou algumas dúvidas quando foi anunciada. Exibida através do serviço de streaming Netflix em conjunto com o canal AMC e saída diretamente das mentes de Vince Gilligan e Peter Gould (criadores de Breaking Bad), a nova série completa seu primeiro ano mostrando que não vive de passado e surpreende com uma trama inédita, transbordando toda qualidade que tornou seu programa de origem premiado e conhecido mundialmente.

Como sugere o título, o programa é centrado no advogado Saul Goodman (Bob Odenkirk). Viajando pela linha do tempo, a série mostra o personagem antes e depois dos eventos de Breaking Bad, que o apresentou em sua segunda temporada num episódio intitulado “Better Call Saul“. Tendo como abertura um futuro nada feliz para o advogado, o episódio inicial logo volta no tempo e nos faz conhecer a época em que Saul ainda se chamava Jimmy McGill, um advogado pouco experiente e mal sucedido que acaba tendo ligação com criminosos e precisa sobreviver. Entre eles, vemos no início da série o conhecido dos fãs Tuco (Raymond Cruz) e Nacho (Michael Manto), que é o traficante que mais aparece na nova série.

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Mesmo com grande peso dramático, a série se distancia do seu material de origem com uma veia cômica de muito bom gosto. Temos nova oportunidade de ver as soluções ousadas que o advogado arruma para os problemas mais improváveis. Ver os tipos de situações que Jimmy McGill se sujeita ao longo da temporada é de fazer qualquer um rir e às vezes ter pena do personagem. Com pouquíssimo apoio, ele precisa ser criativo para pagar suas contas, indo parar num asilo e convenientemente decidindo se especializar em Direito dos idosos. Este direcionamento na carreira dá ao protagonista o maior caso em potencial que já teve em mãos, o que acaba mudando sua relação com os outros personagens.

No elenco principal, temos personagens que participam da vida de Jimmy de diversas maneiras. Entre eles temos seu irmão Chuck (Michael McKean), que sofre de um raro problema de saúde e precisa de cuidados diários do protagonista. Chuck é advogado e fundador do grande escritório HHM, que na ausência dele é comandado por Howard (Patrick Fabian), com quem Jimmy tem uma certa rivalidade. A vida dos irmãos passa por um dilema quando Chuck tem que decidir se apóia ou não Jimmy em sua carreira advocatícia. Aos poucos vemos que o passado do protagonista preocupa Chuck, que por mais que ame o irmão torce para que ele seja bem sucedido por conta própria e de forma honesta.

Como único suporte e verdadeira amiga de Jimmy, existe a advogada Kim (Rhea Seehorn), que trabalhada para os rivais do HHM. Os dois tem uma relação interessante de amizade, mas que é abalada toda vez que Jimmy dispensa conselhos de Kim graças a sua tendência ao lado trambiqueiro que manchou seu passado. Um dos casos jurídicos do início da série envolve um casal que teria dinheiro desviado do governo e Jimmy deve optar entre ajudá-los da maneira ética ou participar do esquema se beneficiando. A balança moral do personagem é perfeitamente retratada na série ao passo que desperta no próprio espectador a dúvida quanto a conduta correta, gerando situações hilárias para o frustrado protagonista.

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Apesar de não termos aparições dos protagonistas de Breaking Bad, Whalter White (Bryan Cranston) e Jesse Pinkman (Aaron Paul), a série nos lembra muitas vezes que existe um universo compartilhado sem precisar conectar seus eventos. Um dos personagens mais recorrentes da temporada é ninguém menos que Mike (Jonathan Banks), velho conhecido dos fãs, que ajuda Jimmy em alguns trabalhos sujos. Honrando a popularidade que tem com os fãs, Mike tem um episódio inteiro dedicado a contar seu passado e ele é extremamente bem sucedido em amarrar as pontas e explicar a postura e as atitudes do personagem, que protagoniza as poucas, porém ótimas, cenas de ação da série. Mesmo num programa recheado de boas atuações, se destaca a dupla Bob Odenkirk e Jonathan Banks.

Um fator que muito agrada durante toda a temporada é que toda excelência técnica que marcou Breaking Bad é vista novamente em Better Call Saul, incluindo seu estilo de filmagem bastante cuidadoso e peculiar. Ângulos de câmera mais distantes e localidades típicas do Novo México são constantes, acompanhados de uma trilha sonora marcante.

Chegando ao episódio final vemos o protagonista voltando às origens de trambiqueiro e um certo evento chocante o faz ter uma epifania, dando o último pontapé para transformação de Jimmy McGill em Saul Goodman e mostrando que vem mais pela frente. Com apenas dez episódios em sua primeira temporada, Better Call Saul provou ter valor próprio e não vive na sombra de Breaking Bad. Mais uma vez seus idealizadores emplacaram um sucesso e a já confirmada segunda temporada, que terá 13 episódios, não poderia ser mais esperada.

Ficha Técnica:
Better Call Saul – 1ª temporada – 2015
Duração: 10 episódios
Gênero: Drama/Crime
Criadores: Vince Gilligan e Peter Gould
Elenco: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Michael McKean, Patrick Fabian, Jeremy Shamos, Kerry Condon, Michael Mando e Raymond Cruz

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