Resenha – O Jogo da Imitação

“O Jogo da Imitação. Um jogo. Uma espécie de teste. Para determinar se alguma coisa é uma máquina ou uma pessoa.”

O vencedor do Emmy por “Sherlock”, Benedict Cumberbatch, traz mais uma interpretação impecável. Como Alan Turing, o ator britânico dá vida ao gênio da matemática que precisa driblar seus problemas de relacionamento para trabalhar com um grupo de criptografistas.

A história apresentada pelo filme foi mantida escondida como segredo de estado (literalmente) por muitos e muitos anos.  O objetivo da equipe liderada por Turing era decodificar as mensagens alemãs enviadas através de um sistema chamado Enigma, que criptografava informações de forma até então indecifrável. O segredo impediu que os matemáticos fossem devidamente reconhecidos por um trabalho que foi absolutamente decisivo para que os Aliados vencessem a Segunda Guerra Mundial.

A brilhante história de Turing não gira somente em torno de sua genialidade e do Enigma, mas também de suas relações interpessoais e com sua homossexualidade. Na época do matemático, ser gay na Inglaterra era considerado um crime. Sem usar o tema com muleta do roteiro e sem definir Turing apenas como um gênio homossexual, o filme aborda a questão com muita naturalidade: a sexualidade do matemático é apenas parte de um personagem complexo e a força motriz que o conduz ao longo da história.

Alan Turing também é apresentado como uma pessoa extremamente difícil de lidar, com uma persistência teimosa e o orgulho de quem tem plena certeza de que é gênio, sim. Esses traços da personalidade do protagonista acabaram rendendo alívios cômicos sutis e sempre engraçados. As melhores cenas giram em torno da incapacidade de Turing de entender ironias, indiretas e sutilezas do discurso.

O comportamento social do personagem de Cumberbatch parece beirar um autismo ou Asperger, mas é uma excelente forma de aproximá-lo de uma máquina: fria demais, objetiva demais, direta demais. O contraste aparece quando Turing parece ter dificuldade em decodificar o que palavras e linguagem corporal dizem muitas vezes, mesmo sendo um mestre da criptografia: “Quando as pessoas falam, nunca falam o que querem dizer. Elas falam outras coisas e esperam que você saiba o que elas estão querendo dizer”.  O cérebro do matemático funciona da mesma forma que o protótipo de computador que construiu para derrotar o Enigma.

A forma como a história de Alan Turing é contada mostra uma excelente parceria entre diretor e roteirista. A história não é contada de forma linear, com constantes flashbacks e avanços na história. Tudo é montado de forma muito precisa, e a trama flui de forma concisa, como se cada memória e cada momento da vida de Alan Turing estivesse sendo realmente contado por alguém que lembra de fragmentos de história aqui e acolá.

O grande destaque do filme é, obviamente, a interpretação de Benedict Cumberbatch. O ator conseguiu transmitir a personalidade de um homem difícil de lidar, que foge dos padrões sociais “normais”, mas sem cair no gay estereotipado. O Alan Turing de Cumberbatch tem inúmeros defeitos – ofende, é arrogante, orgulhoso e teimoso – mas ao mesmo tempo é difícil não sentir uma empatia que beira a pena: com sua ingenuidade cômica e dificuldades de lidar com as pessoas, encontramos alguém extremamente solitário.

Ainda que Cumberbatch seja merecidamente um indicado ao Oscar de melhor ator esse ano, ele também está cercado de vários talentos. Vale destacar o trabalho da coadjuvante Keira Knightley como Joan Clarke, uma mulher que enfrentou vários preconceitos de sua época para trabalhar na decodificação do Enigma. A atriz consegue trazer um dos personagens mais interessantes do longa, forte, a frente de seu tempo, mas que tem os questionamentos e insegurança de alguém que está disposto a enfrentar barreiras.

Além de emocionar com a história de Alan Turing, O Jogo da Imitação não deixa de tocar no valor dos avanços da ciência e da luta de indivíduos que nem sempre estão na luz holofotes, recebendo honrarias e homenagens, mas conseguem mudar a vida de muita gente. Sem o trabalho e a persistência de Turing e de seus colegas, talvez esse texto não seria escrito e você não estaria lendo uma crítica sobre o homem que venceu a guerra sem ter pego em nenhuma arma.

Ficha técnica
The Imitation Game – 2014 (EUA, Reino Unido)
Duração: 113 minutos
Gênero: Biografia, Drama
Direção: Morten Tyldum
Roteiro: Graham Moore
Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Kinightley, Mark Strong, Matthew Goode, Charles Dance